16 Agosto 2005
ANY WAY THE WIND BLOWS: tal como a gente, tal como a vida.

promessas são só promessas e a falta de tempo é uma coisa lixada. não voltei no tal domingo, volto agora, atrasado umas boas horas, mas com a pica do costume. não esperem grandes actualizações nos próximos dias, já que o verão não é propício às infinitas horas em frente de um monitor. e também porque os portáteis da tsunami são uma treta e avariam-se com qualquer coisa. e também porque a internet ainda não chegou às aldeias. adiante.
com a vaga de calor que por aí anda é cada vez mais urgente uma pequena brisa que seja, um bom pedaço de vento em plena silly-season. vamos esperar que ele chegue, de uma qualquer forma que seja, desde que não ajude em nada os incêndios que teimam em destruir o verde do nosso país. mas este vento de que vos falo é outro. é um vento infinito, que sopra para onde soprar, permanentemente. chama-se any way the wind blows e é um automático filme de culto, que marca a estreia de tom barman, o vocalista dos deus, na realização. muito mais que uma mera curiosidade para os fãs da banda belga, para onde o vento sopra é um filme que fala por si só, pelo que todo hype gerado à volta do nome de barman era claramente dispensável. o homem quis fazer um filme e conseguiu-o.
narcisista ou não, o certo é que é uma obra bastante pessoal e incrivelmente realista, que nos toca pela simplicidade e pelo acaso, numa autêntica negação ao amigo murphy. é um filme mosaico, mas qualquer comparação com «magnolia» é uma infantilidade. a narrativa em any way the wind blows pode parecer inexistente mas, ao invés disso, é de uma inteligência e criatividade tais que nos toca de uma forma dispersa, tal como os fios do argumento, num anti-clímax geral. tal como o wind-man, o homem do vento. ao fim dos primeiros cinco minutos vão saber o que vos quero dizer com isto.
mas se o filme é uma verdadeira surpresa a todo o momento, sem a mínima hipótese de se adivinhar a cena seguinte, temos de ser justos e confessar que não é uma película fácil para toda a gente. é um caso
bizarro, um ensaio sobre a vida humana, como se uma câmara estivesse apontada a um universo particular, a uma sala fechada com a expressão melting-pots cravada na porta. para uns talvez seja esse o maior problema, o facto de não existirem rédeas nem barreiras, numa liberdade total característica do ser humano, que a certa altura é capaz de nos confundir. porém, talvez seja essa também a maior virtude, a da liberdade, aliada à beleza dos conflitos emocionais que, ora surgem, ora desvanecem, próprios da sociedade de hoje (e de sempre), embora retratados de uma forma extremamente metafórica e melodiosa.
notável, pela sua leveza e grandeza. como a vida, numa dança épica e aleatória, que voa para onde quer que o vento sopre.
(texto editado e originalmente publicado na revista maiszoom, agosto 2005)
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